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GUAJARÁ-MIRIM: Da Cachoeira à Síntese

Matéria e Direitos: gentedeopiniao.com.br/MATIAS MENDES 03/07/2012

De qualquer modo, doravante, muito dificilmente a cidade de Guajará-Mirim voltará a ser chamada de cachoeira pequena, em boa hora até, pois o termo cachoeira atualmente anda em baixa, virou quase sinônimo de maracutaias.

GUAJARÁ-MIRIM - RO

A despeito da aparente inutilidade da discussão em torno da origem etimológica e do verdadeiro sentido do topônimo Guajará-Mirim, denominação de origem tupi-guarani da cachoeira das cercanias da cidade que terminou por receber a mesma denominação, a julgar pelas opiniões até agora aportadas ao tema, parece que não há mais ninguém que defenda a tese antiga de que o termo signifique cachoeira pequena, que até poderia ser também cachoeirinha, já que na língua tupi o adjetivo-advérbio mirim enseja a tradução pelas duas formas. Remanescem apenas leves divergências em relação ao sentido do étimo guajará, que alguns poucos ainda insistem na decomposição do termo e outros aceitam que de fato se trata da denominação de algumas árvores de várzeas.

O certo mesmo é que o étimo guajará, indubitavelmente presente nas línguas neo-tupi da Amazônia, aparece na toponímia regional em vários pontos da grande Bacia Amazônica, não apenas no município amazonense elencado por um dos contestadores, mas também no Estado do Pará, na forma de Baía de Guajará, fato que se não pulveriza ainda a tese do historiador boliviano Juan Carlos Crespo Avaroma de que diversos dialetos do Oriente boliviano teriam contribuído para a formação do vocábulo, com a contribuição de mais alguns dialetos de origem tupi presentes em território brasileiro e até do português, convenhamos que já a deixa em condições insustentáveis, principalmente pelo fato de que se trata de um vocábulo de apenas três sílabas, etimologicamente impossível de haver sido produzido por tantas matrizes linguísticas. Se fôssemos aceitar tal tese, as sete letras do vocábulo seriam menos que as supostas matrizes linguísticas que o geraram. Foi em razão de tal incongruência que afirmei ser o conceito do historiador boliviano uma pérola de sandice, mas sem qualquer intenção de menoscabo em relação ao intelectual. Continuo acreditando que, entre a sua tese equivocada e a tradicional tradução estapafúrdia do termo, é preferível permanecer no engano antigo para não incorrer no deslize da emenda pior que o soneto.

Por outro lado, autores de reconhecido valor acadêmico, entre os quais o respeitabilíssimo professor Abnael Machado de Lima, concordam que o vocábulo tupi guajará é nomenclatura de árvores de famílias diversas. Quanto aos que defendem a decomposição do termo para dar-lhe sentido diverso das espécies vegetais que ele denomina, estes esbarram em norma consagrada da língua tupi, pois o vocábulo é oxítono, não contendo em si o termo jara que ensejaria a decomposição. De tal modo, a palavra guajará (oxítona) constitui termo único, enquanto que a palavra guajara (na forma paroxítona) é constituída por dois termos, podendo ser decomposta na forma de gua (campo) e jara (dono, senhor, chefe), isto segundo as regras de composição da gramática da língua tupi. No que tange à derivação de jara para yara, isto acontece na nomenclatura castelhana de Guayaramerín, cujas raízes etimológicas podem ser ou não as mesmas do vocábulo composto brasileiro, mas que prefiro não me imiscuir, por razões óbvias, pois não conheço os dialetos enumerados pelo autor boliviano, não me sendo possível qualquer inferência responsável neste sentido.

Vem ao caso aqui esclarecer que não tive nenhuma intenção deliberada de ofender o historiador boliviano Juan Carlos Crespo Avaroma, cujos méritos fiz questão de ressalvar, apenas contraditei sua intervenção pouco elucidativa, conquanto vertida em enunciado de retórica impecável, dialeticamente muito bem elaborado e linguisticamente irretocável. Insurgi-me contra o sofisma do seu arrazoado, contra a tervigersação do politicamente correto para não desagradar ninguém, contra o escapismo literário que não pode ser cultivado por um historiador nem por escritores de outros ramos que não sejam ficcionais. Mas é normal que escritores divirjam entre si até com o uso de termos nada amáveis, tal como divergem os causídicos nos tribunais, os parlamentares nos parlamentos e outros integrantes de segmentos que militam no campo das ideias. Não é crime divergir nem criticar. Só não deve é confundir critica com insulto como alguns costumam fazer. Ou então aproveitar-se da discussão sobre um assunto para destilar rancores mascarados de crítica. Enfim, a liberdade de tecer críticas não deve ser confundida com as mesquinharias vingativas daqueles que não têm coragem nem preparo para resolver suas desavenças como homens de verdade. Charadinhas imprudentes de mau-gosto de fato não levam de nada a lugar nenhum, pois ninguém é obrigado a ler textos que não lhe interessem.

De qualquer modo, doravante, muito dificilmente a cidade de Guajará-Mirim voltará a ser chamada de cachoeira pequena, em boa hora até, pois o termo cachoeira atualmente anda em baixa, virou quase sinônimo de maracutaias.